Decoração afetiva não é produto, é processo.

Será que a máquina de costura de dona Edite usou tantos anos para trabalhar, torna meu home office um lugar afetivo?
Será que esse porta-retrato dos meus filhos pequenos, torna esse meu espaço de trabalho um lugar que me traz motivação no dia a dia? Será que essa planta ao lado do meu computador, é suficiente pra que eu me sinta conectada a natureza?

Sim, talvez sejam pequenos lembretes das coisas que importam pra mim, mas vou te contar um segredo:

Na prática, quando entro no meu home office, das 13h às 19h, quase não percebo nada disso ao meu redor. Se eu tiver com pressa pra entregar um trabalho para minha cliente, a planta fica dois, três dias sem água. Se eu tiver muito preocupada com algo, seja minha saúde ou as contas pra pagar, olho para esse porta-retrato e tenho vontade de chorar, de ser a filha novamente pra não precisar ter tantas responsabilidades, e ser também, cuidada. Se eu tiver num dia ruim, olho pra aquela máquina e lembro o quanto a minha vó, mesmo vivendo até os cem anos de vida, morreu sem a oportunidade de realizar coisas que ela tanto desejava.

Esse é o poder da decoração afetiva, ela NOS AFETA, de diferentes formas…Como a gente se afeta vai depender de como as coisas estão aqui ó, na nossa cabeça. E o que fazemos com essas emoções é o mais importante.

Acho que é por isso que a decoração afetiva não é produto, é PROCESSO. Não é essa promessa de uma casa saída do Pinterest, cenários perfeitos para gravar stories no Instagram, com recortes românticos de uma vida adulta. Amo romantizar a minha rotina, ou como disse Rubem Alves, abrir minha caixa de brinquedos e contemplar os meus espaços com uma olhar criativo e infantil.

Mas a decoração afetiva, numa casa própria ou alugada, é um lugar de reflexão, de inspiração, de expressão autêntica da nossa criatividade, que permite sermos tomando por emoções diferentes a cada momento. Objetos que contam a nossa história, que nos direciona para as nossas prioridades e objetivos, cores de paredes que nos proporcionam sensações, enfim, um lugar com diversas ferramentas que nos levam a outros lugares que nos fazem sentir. E fazer algo a partir disso.

Tem dias que que olho para a máquina de costura da minha vó e lembro que estou aqui para romper ciclos ancestrais, olho pra fotos dos meus meninos e planejo futuros divertidos, vejo esse vasinho de barro e abro as janelas, tem um quintal cheio de pássaros lá fora.

Agora imagina o quão difícil é não ter nada disso disponível, nesse lugar, que mais nos permite ser quem somos, que é a nossa casa? Viver em um espaço bagunçado, onde não temos referências, onde não encontramos vestígios das nossas importâncias, onde não conseguimos enxergar esperanças?

Ou a gente vai viver numa desconexão imensa de quem somos ou estaremos rendidos ao mercado e suas expressões frias e impessoais.

Tem gente que prefere não sentir.

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